Capítulo 2: Lealdade
Erron abre os olhos e se depara com o teto. O brilho de um Sol ardente adentrava pela janela, iluminando todo o quarto. Sem precisar forçar sua vista, repara em minúsculos insetos andando em bando, sem direção alguma. Pareciam procurar um dos seus que havia se perdido. Black os segue com o olhar, viajando por quase todos os lados e voltando.
Seu quarto era bastante simples. Paredes claras, chão de pedra. Sua cama era pequena, mas grande o suficiente para apenas ele. Uma pequena cômoda guardava algumas de suas poucas roupas, porque seu armário priorizava seus equipamentos. Suas armas ficavam ancoradas em ganchos espalhados por todo o cômodo, todas lustradas e bem cuidadas.
Ele refletia. Nos últimos meses, seus períodos de descanso não honravam o nome. Após mais uma tarde sem dormir, Black aceitou que não conseguiria, e esperava acompanhado de uma angústia anônima o turno da noite, para voltar ao seu trabalho. Um barulho de riscar no metal incomoda o pistoleiro, que rapidamente responde.
- Ainda tenho meia hora, Baraka.
A porta se abre, e por ela passa uma figura quase que animalesca. Um humanoide branco, sem lábios, com dentes enormes, grotescos e afiados. Não possuía cabelos, e grossos espinhos saíam de seus ombros. Vestia um traje branco com calças escuras. Estava tranquilo, mas mesmo em sua expressão mais serena, a criatura parecia uma ameaça iminente.
- A Kahn quer falar com você, humano. - Avisa Baraka, com sua voz que se assemelhava ao riscar do metal.
- Legal, perdi minha meia hora. - Responde Erron se levantando.
Black abre seu armário e começa a se equipar. Depois, puxa seu chapéu, seus revólveres e seu rifle dos ganchos, e se volta para Baraka.
- Ainda bem que eu estava vestido.
- Você humano depende muito de suas armas. - Replica Baraka, ignorando o comentário de Black.
Os dois deixam o quarto e seguem andando pelos corredores do castelo de Kitana Kahn. A construção era uma mistura do grosso com o belo. As decorações em pedras feitas de modo rústico não eram facilmente perceptíveis, mas quando eram, realçavam os olhos. Pinturas representavam todas as raças residentes no Outworld, ordem da própria líder, sobrepunham as que retratavam o poder e a força de Shao Kahn.
- Qual é o seu problema com minhas armas?
- Nenhum, humano. Me refiro ao seu problema sem elas.
- Ou seja, ainda problema nenhum.
Baraka e Black chegam no salão do trono. O ambiente era coberto de ouro e prata, como se as pedras que solidificam o castelo fossem apenas adereço rodeando todos os metais. O pistoleiro imediatamente observa a Kahn, sentada em seu posto. A mulher não era alta, também não possuía um físico tão trabalhado, mas se impunha pelo seu olhar sério, ao mesmo tempo condescendente. Dona de traços orientais, vestia um traje preto com detalhes em azul, que revelavam somente seus braços.
Mesmo sendo a Kahn do Outworld por um bom período de tempo, Kitana ainda não havia se acostumado com o salão. Muito menos gostava de tantos artefatos valiosos nele. Apenas os mantinha por educação, já que foram presentes recebidos por suas mudanças benéficas ao reino.
O pistoleiro e a criatura se aproximam do trono e fazem sua reverência, quando a Kahn se levanta e caminha em direção do primeiro.
- Um guerreiro de Edenia me trouxe uma mensagem de Sheeva. Ela requisita minha presença, pois minha mãe promete negociar o paradeiro de Quan Chi em troca de sua liberdade.
- E vocês confiam em sua palavra? - Pergunta Erron.
- Confiança é necessária. Mas, não posso entregá-la de modo cego. General Kotal e Jade irão comigo até Edenia, por isso preciso de você. - Afirma Kitana erguendo o braço até o ombro do pistoleiro. - Você ficará encarregado da proteção do castelo até nossa volta.
Black contém sua reação e se vira para Baraka, que parecia estar indiferente. Ao voltar seu olhar para Kitana, percebe que a Kahn estava começando a se incomodar com a demora pela resposta.
- Sim, senhora. Eu me responsabilizo pela proteção do castelo.
- Perfeito. - Responde Kitana, abrindo um sorriso. - Ermac e Reptile ficarão a sua disposição. Qualquer mudança de planos, você será prontamente avisado.
Kitana solta do ombro de Black e se dirige para fora do salão.
- Partiremos já, confio em você, Erron Black. - Diz Kitana, de costas para os dois, virando o corredor e saindo de suas vistas.
- Porra. Por que logo eu? - Questiona Black respirando fundo.
- Também não entendi. Você não é o nosso guerreiro mais forte.
- Obrigado, Baraka.
- Nem o mais confiável.
- Obrigado, Baraka.
Baraka muda seu olhar pela primeira vez no dia.
- Eu só estou tentando explicar...
- Vá guardar a entrada do castelo. - Interrompe o pistoleiro. - Quando eu precisar de você, te chamo.
O tarkatâneo acena com a cabeça, meio contrariado, e vai, enquanto Black fica pensativo no salão.
Minutos se passam, e Erron se põe a andar. Na sua passada ininterrupta e constante, acaba encontrando vários soldados da Kahn, que o olham de maneira atravessada. Sem fazer qualquer menção de reação, o pistoleiro assim segue até a cozinha.
Ao chegar, nota que não havia ninguém trabalhando no momento, e que vários alimentos estavam jogados pelo, vasto, ambiente. Erron espreme os lábios, e se aproxima da mesa. Sobre ela estavam diversas frutas, algumas já mordidas. Tudo estava bem fresco ainda.
- Syzoth!
De repente, uma figura começa a se revelar ao lado das grandes pias. Um humanoide de raça sauriana, dono de uma pele verde escamosa, e uma estrutura corpórea reptiliana, vestia um colete de couro e ossos, junto de uma calça escura. Também conhecido como Reptile, ele joga o pedaço de carne no lixo, e caminha até Erron Black.
- Aquela ali não está boa. Não temperaram direito. - Ironiza a criatura.
- Cala a boca. Por muito pouco você não come as próprias pias da cozinha. - Reclama o pistoleiro.
- Desculpe, estava com fome e os cozinheiros não estavam querendo trabalhar.
- Eles não trabalham pra você, eles apenas cozinham o que a Kahn pede e necessita. - Retruca Black. - Peraí, onde estão os cozinheiros?
Reptile se vira para o balde de lixo onde havia jogado o pedaço de carne. Black não hesita e saca seu revólver, apontando para a cabeça do Sauriano, e destravando imediatamente.
- É brincadeira! Eu disse que a Kahn havia dispensado eles e foram pra casa!
Erron fecha seu semblante e guarda sua arma novamente.
- Porra, humano. Você vem sendo uma pedra nas minhas patas! Logo você sendo tão rígido quanto as regras da Kahn?
- Kitana Kahn está viajando para Edenia neste exato momento. Estou responsável por proteger o castelo.
Reptile abre um sorriso, deixando sua enorme língua passear para fora.
- Vejo... Kitana Kahn governa Outworld de uma maneira justa com meu povo, mas não há como negar que por horas ela é inocente até demais... Parece que pede para que você a traia de novo. Qual vai ser, humano? O que vai roubar desta vez?
Em um único movimento, Black saca a arma novamente e dispara contra o pé da criatura. Um pequeno jato de sangue verde explode no chão, enquanto Reptile ameaça um contra-ataque. O pistoleiro saca o outro revólver, e ambos ficam se encarando.
- Torça para que a viagem da Kahn seja breve, humano! Porque sobre sua proteção, este lugar está perdido!
- Não se esqueça que você também tem o dever de protegê-lo, eu apenas estou na posição de mandar em ti. - Retruca Erron. - Agora limpe esta bagunça.
Reptile se retrai, mas não tira seu olhar de desprezo sobre o pistoleiro.
- Nós dois sabemos que ela cometeu um erro confiando em você, e eu não estou falando sobre a decisão de hoje.
Erron guarda seus revólveres e dá as costas para o Sauriano. Ao chegar na porta da cozinha, para.
- Você sabe onde está Ermac?
- Calabouço. - Responde a criatura, enquanto recolhia os restos de alimento espalhados pela cozinha. - Onde você deveria estar!
Black ignora o segundo comentário e segue em direção do calabouço do castelo. Ao passar pelas escadas, a luz natural do Sol ardente do Outworld dá lugar a uma iluminação por velas, penduradas em candelabros, por toda a parede. Uma quantidade menor de soldados trabalhavam especificamente na vigilância dos presos, portanto, Erron quase não encontra ninguém em seu caminho até lá.
Descendo até o último nível de celas, o pistoleiro enfim avista Ermac. Trajado em um longo sobretudo fechado de coro, em tons vermelhos escuros, usava uma touca para cobrir a parte de cima da sua cabeça. O rosto era algo decrépito, praticamente em decomposição, com algumas faixas pretas pra esconder parte dele. Seus olhos brilhavam um verde claro, mas fraco. Não pisava os pés no chão, flutuava sobre ele.
Ermac direcionava seu olhar para a última cela do corredor, mas, parecia não estar lá. Absorto, reflexivo, quase como se estivesse num transe. Erron não estranha e caminha em sua direção. Ele não é um homem, ou uma criatura normal, e sim uma criação maléfica de Shao Kahn, reunindo a alma de todos aqueles que se opuseram a sua dominação em Edenia em um ser só. Tais cenas eram comuns.
- Ermac, meu turno. Pode me dar as chaves.
Ermac se vira para o pistoleiro, não mais absorto, retira a chave de um de seus bolsos e a entrega.
- Sentimos algo diferente em você hoje. Algo mais forte.
- É a repulsa que eu sinto deste lugar. E de certas pessoas. - Responde Black olhando fixamente para a cela.
- Isto não é verdade. Algo te incomoda, e algo fez este incômodo crescer bastante hoje.
- Eu não vim atrás de terapia. - Replica Erron ríspido.
- Também não veio atrás das chaves.
Erron começa a balançar a cabeça, ao mesmo tempo que tenta impedir que sua língua fale algo, se esforça para formular o que ela deve dizer. Ermac segue ignorando Black, e parte em direção das escadas.
- Nada mais justo de que você tenha aquilo de que veio atrás agora. - Diz Ermac subindo as escadas, sem olhar para trás.
Black olha para as chaves, depois para a cela. Ele as põe junto ao coldre de seu revólver, e se aproxima. A sombra escura se dissipa a cada metro, até que Erron finalmente enxerga aquilo que procurava: Skarlet.
A mulher estava sentada de costas para as grades, usando as roupas triviais que a Kahn oferecia a seus prisioneiros. Ela sente a presença do homem, mas finge ignorá-la. Erron se encosta na grade e tira seu chapéu.
- Eu não sei porque eu tô aqui.
- Demorou só um ano para vir. - Responde Skarlet com raiva.
- Você tentou me matar... Sei que parece que estou acostumado a isso, mas você foi a primeira assassina com poderes sobre-humanos e tals.
- Eu não sou humana! Seu sangue nojento não corre pelas minhas veias.
- Sabia que vir aqui seria perda de tempo...
- Você me tirou tudo Erron Black! Você me traiu! Traiu nosso Kahn!
- Eles pagaram mais. - Replica Erron Black com a resposta na ponta da língua.
- Mentira! É porque você foi covarde! Sempre foi!
- Talvez seja por isso que eu estou aqui. - Suspira o pistoleiro recolocando o chapéu em sua cabeça. - Naquele dia, eu traí a Kahn. Pior que isso, eu estava traindo as pessoas que me deram uma segunda chance. Kotal... E o que me dói mais é que eles continuam confiando.
- Igual eu confiei.
- Para com isso. Nunca fiz nada muito mau contigo até a primeira vez que você tentou me matar.
- Você fez pior. Traiu Shao Kahn! - Agora Skarlet é quem suspira. - Você não foi o único em que não devia ter confiado.
Erron dá um toque no chapéu, fazendo sinal para Skarlet continuar, e ela a faz.
- Era o nosso plano. Tudo isso foi parte do plano. Eu não iria te matar... Pelo menos, não precisava te matar.
- Foi bem convincente nessa parte, parabéns. - Ironiza Erron.
- Eu iria ser capturada, e de dentro do castelo, ajudaria Havik a pegar a Adaga de Kamidogu que Kitana guarda aqui.
- Kitana Kahn. - Corrige Black.
- Um ano se passou. - Segue Skarlet, ignorando seu ex. - E nada, nenhuma mensagem. Abandonada mais uma vez...
- Eu detesto lhe trazer más notícias, mas eu lhe trago más notícias...
O olhar de confronto de Skarlet fica apreensivo por um instante.
- Kotal e Jade abriram uma investigação sobre a Red Dragon... E recentemente eles descobriram que não há mais Red Dragon. - Afirma o pistoleiro.
- Como assim? - Indaga Skarlet em leve choque.
- Eles encontraram os corpos de todos os seus companheiros. Mortos.
Skarlet esboça um sorriso incrédulo. Seu olhar se fixa no nada, mas ela vê toda uma estrada sem fim se transformar apenas num trecho sem saída. Suas mãos vão até a cabeça com o sacramento do fim de suas esperanças.
- Quem os matou?
- Esta é a parte que Kotal ainda não descobriu.
Seu coração começa a palpitar mais rápido, Skarlet se levanta e com um salto se agarra as grades. Erron recua com um pouco de susto.
- Eu preciso falar com Kitana! Agora! - Exclama Skarlet, tentando arrancar as grades a força.
- A Kahn está viajando para Edenia neste momento. Kotal e Jade estão com ela.
- Droga! Erron, me responda! Eles encontraram a Kamidogu de Havik?!
- Não encontraram nada. - Responde Black sem entender o desespero da mulher.
- Você precisa de mim! Erron, você precisa de mim! Me solta! Quem matou eles está atrás das Kamidogus, e vai vir pra cá!
- Você acabou de falar que queria pegar a Kamidogu também, e até agora nenhum filho da puta teve a audácia de me explicar o que porra está acontecendo!
- Eu...
Um barulho de explosão interrompe Skarlet. Os calabouços tremem, desequilibrando os dois. A mulher acaba caindo no chão, já Erron saca suas armas. A assassina se levanta e volta a se agarrar nas grades.
- Você precisa proteger a Kamidogu, não importa quem seja.
Black engole a seco, preocupado com o quão importante essa Kamidogu parece para Skarlet, o medo genuíno que ela exalava com o seu tom de voz e seu olhar desesperado.
- A chave está comigo, não deixarei ninguém levar.
- Kano estava certo então... - Responde uma voz feminina desconhecida.
Ao fim do corredor surgem duas figuras, Kira e Kobra. A moça com vestes pretas e cabelos coloridos presos em dois rabos de cavalo. Empunhava dois Dentes de Dragão, lâminas com serras chamativas e uma ponta curvada. O rapaz vestia uma espécie de quimono preto, era loiro e forte fisicamente, estava armado com uma machete. Ambos se aproximam do pistoleiro.
- Ah, os novos cachorrinhos do Kano. - Provoca Erron.
- Te matar seria um prazer, Erron Black, mas nós só precisamos da chave de acesso a sala segura de Kitana Kahn. - Afirma Kira.
- Que pena, eu adoro prazeres. - Retruca o pistoleiro, apontando seus revólveres para os dois.
Kira sorri e investe contra Black, ele dispara contra ela, que apara as balas com seus Dentes de Dragão. Kobra aproveita a brecha e arremessa a machete contra Erron, que apenas desvia o suficiente para não recebê-la em cheio, mas acaba sendo cortado. A mulher enxerga seu alvo vulnerável e finca um Dente de Dragão em sua perna, além de acertar uma cotovelada em sua cabeça.
Erron cai e rola pra trás, tentando se afastar da investida. Kira salta sobre ele para fincar suas duas lâminas, mas ele desvia. Sem perder tempo, acerta um tapa com os seus dois revólveres sobre ela, e arremessa um deles na cabeça de Kobra, que cai no chão de costas.
Kira agarra o outro braço de Erron, e o prende numa chave, desarmando-o do outro revólver. Kobra se aproxima e começa a chutar Black. A mulher se irrita com o seu parceiro.
- Pega a porra da chave!
Kobra acena que sim e tenta puxar a chave do coldre de Black. Mesmo sentindo muita dor da pressão de Kira, Erron consegue puxar no seu bolso um frasco com um líquido verde, e o entrega na mão do homem.
- Que porra é essa?
Erron aperta um botão em seu coldre e o vidro começa a se dissipar na mão de Kobra, soltando todo o ácido contido sobre ela. O homem começa a se desesperar, enquanto a dor de ter sua mão derretida o consome. Kira se irrita e parte para vários socos na cabeça do pistoleiro, que aproveita para se soltar da chave em seu braço.
- Atrevida... - Reclama Erron.
Black recua até a grade da cela de Skarlet, que o puxa.
- Que porra é essa?! - Questiona assustado.
- Estou te ajudando. - Responde a assassina.
Skarlet põe sua mão sobre o corte feito pela machete, e puxa parte do sangue escorrido para si. Ela manipula o líquido e o direciona até as grades de sua cela. O metal começa a borbulhar e a derreter, tal qual a mão de Kobra.
- Puta merda...
Ao se virar, Erron é recebido com um chute voador, que o arremessa contra as grades que se derretiam. O impacto quebra-as, e o pistoleiro cai sobre Skarlet. Kira rapidamente se aproxima, e retira a chave de seu coldre.
- A Black Dragon agradece sua cooperação, Erron. - Ironiza Kira.
Kira sai correndo dos calabouços, deixando Kobra agonizando no chão. Erron e Skarlet se levantam e correm para fora da cela.
- Temos que pegá-la! - Exclama Skarlet.
- Escuta aqui. - Diz Erron, puxando a mulher pelo braço. - Se você me trair de algum jeito, juro que te mato com minhas próprias mãos.
- Me solta! - Responde Skarlet num puxão, desvencilhando-se do homem. - É você quem trai, Black.
Skarlet corre em direção as escadas, deixando Black pensativo, quase desconectado do mundo. Só não chega a tal porque os gritos de dor de Kobra o trazem de volta a realidade. O pistoleiro saca seu rifle e se aproxima do membro da Black Dragon.
- Sua amiguinha é a próxima. - Afirma Erron.
Black põe o cano do rifle dentro da boca de Kobra e dispara.
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