quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A. Foice - "Eu fiz"



A. Foice


O riscar da foice em solo molhado traça retas tortuosas, que rapidamente são cobertas pela água que continua caindo, voltando a serem o que eram antes do toque do metal: nada. A noite brilha sobre as poças de um caminho já enlameado. A trilha de luzes artificiais mascaram a beleza da vegetação molhada, mas indicam um destino: uma simples residência.

Um cômodo limpo, mas que pela influência da velha lâmpada que o iluminava, possuía um tom laranja sujo. A mobília era toda de madeira envernizada, a parte dos eletrodomésticos em tom de prata. A louça estava suja, as paredes, pouco por parte da luz, pouco por parte da sujeira, não sabiam se eram brancas ou amarelas. Um homem se sentava à mesa, farta, e comia sem nenhum pudor ou etiqueta.

Ele, robusto, careca, possuía traços latinos e não era tão alto assim. Vestia uma camisa roxa e uma bermuda florida. A cada mordida, sua movimentação ficava mais brusca, mais violenta. A falta de cerimônia já havia se tornado uma espécie de agressão aos alimentos. Tão concentrado em sua luta contra os alimentos, parecia ter se transportado a outro mundo, inerte aos barulhos do lado de fora de casa.

A chuva caía forte, tão forte quanto os passos de uma figura, que se aproximava da casa. Não haviam residências vizinhas, e a vida animal procurava refúgio do ataque das gotas. A foice, que desenhava o caminho seguido por seu empunhador, desaparecera ao alcançar os velhos degraus de madeira, dissipando-se em uma breve sombra.

O bater na porta busca o homem de volta para essa realidade. Ele olha pela janela da cozinha, e se depara com o quão forte a chuva ficou. Com uma feição de desgosto se levanta da cadeira, limpa as mãos na camisa, o que acaba nem limpando elas, mais sujando as vestes, e se dirige até a porta de entrada resmungando.

- Tem que ser muito louco pra chegar aqui nessa chuva.

Ele pega na maçaneta e a mão escorrega um pouco, engordurada, mas consegue abri-la em um único movimento. Do lado de fora, uma figura conhecida. Um homem alto, negro, com cabelo curto e uma feição séria. Todo trajado de preto, desde a bota até a jaqueta de couro, passando pelas luvas e um colar que se escondia por debaixo da camisa. Seu olhar estava vidrado, a parte branca de seus olhos quase que vermelha por completo. A barba por fazer estava encharcada, assim como todo o resto do seu corpo e suas roupas.

- Anthony? - Solta o homem com um tom intranquilo.

- Boa noite, Gary.

Gary recua um pouco com o susto, e a feição relaxada dá lugar a um olhar receoso e sobrancelhas franzidas. Uma sensação ruim começa a subir por sua garganta ao perceber que a cada segundo passado, os olhos de Anthony ficavam mais escuros, e sua presença se tornava ainda mais imprevisível.

- O julgamento já passou, cara! Acabou! - Exclama Gary cerrando os punhos.

Anthony continua encarando o homem como se estivesse o devorando com os olhos, deixando-o ainda mais nervoso.

- Eu fui inocentado!

- Nós todos sabemos que isso não é verdade! - Responde Anthony num tom grotesco, antes de empurrar Gary com uma mão.

O homem é arremessado pela casa, batendo forte no encontro com a parede, que chega a rachar. Anthony estrala o pescoço e segue em sua direção, exclamando angustiado.

- Eu sei! Você sabe! Ashlee sabe! Seus amigos, o júri, o juiz... Todos nós sabemos que isso não é verdade!

Anthony puxa Gary pela gola da camisa e o pressiona contra a parede. O olhar do homem aterrorizado se tornava cada vez menor no confronto contra os olhos ensandecidos do ofensor. A saliva começa a travar na garganta, enquanto a presença da figura superaquece seu raciocínio, dificultando o pensar.

- Ainda bem que o Leonard não sabe. AINDA! - Grita Anthony colado ao rosto do homem.

- Eu não sou o pai dele! - Responde Gary imediatamente. - Você não pode provar!

Sem hesitar, Anthony lhe acerta com um tapa que quase arranca seu rosto da cabeça.

- RESPOSTA ERRADA, PORCO MALDITO!

Gary fica estonteado, sem conseguir recobrar a consciência brevemente. Nocauteado, mas em pé, sendo segurado pela figura e pela parede. Anthony avista a mesa onde o homem comia e o arremessa em sua direção sem cerimônias.

A mesa desmonta. A comida desaba junto com a madeira, enquanto alguns restos voam para diversas direções. O ombro de Gary cai sobre a louça de porcelana, quebrando-a e sendo perfurado por seus cacos. Tudo o que havia de mais resistente na mesa parece fazer questão de se vingar do homem, cortando sua pele.

Anthony caminha em sua direção, atordoado. A sua frente, o visual de um porco sobre um chiqueiro. A falta de etiqueta do homem em uma demonstração explosiva. Sangue jorrado por toda a cozinha, banhando a comida e as louças quebradas. Gary, puxa uma das facas e se vira para seu atacante.

- Você não vai... E-Escapar disso! - Exclama Gary com dores.

Gary empunha a faca como defesa. Anthony olha para a situação com desprezo, e aproxima sua mão do homem, que a perfura com ímpeto. Ele puxa a faca de volta e nota que ela estava limpa. Tampouco o maldito que o ataca acusava qualquer resquício de dor.

- Que porra é essa?! - Indaga Gary aflito.

A figura ergue a mão bem a frente da linha de visão do homem, e puxa a sua luva, revelando sua mão. A pele havia se transformado. A cor negra resultante da sua melanina tinha dado lugar a um branco fosco, morto, sua textura era a de cinzas. Os olhos de Gary saltam e lágrimas de desespero começam a escorrer descontroladamente.

- Isso queima. Você não sabe o quanto. - Diz Anthony, enquanto uma sombra começa a materializar sua vislumbrante foice.

- Por favor! Por favor! Por favor! ME DESCULPA! ME DESCULPA! ME DESCULPA! - Grita Gary.

- Não.

Anthony se levanta e em um movimento finca a foice na barriga de Gary. O grito de dor com angústia preenche o local enquanto o homem se dá conta de que não há como sair dali vivo.

- Vá... se foder Deacon! - Exclama o homem.

Gary pende um pouco pra frente, até que Anthony puxa a foice com força para baixo, abrindo um rombo da barriga até a virilha do homem. O corpo cai no chão, sem vida, enquanto o olhar de Anthony recuperava sua cor original. Ele respira fundo, observando com ódio o cadáver. Lentamente, transfere sua atenção para a sua foice. Sua mão com os segundos, restaurava-se também, e agora, do buraco que o ataque do homem realizou, sangue escorria. Pouco sangue.

A figura vira as costas e parte para a porta de entrada. A chuva havia parado, a brisa já batia pura em seu rosto. Sua foice volta a se dissipar, e Anthony começa a fuçar dentro de sua jaqueta, retirando um celular. Ele liga.

- Cadman... Eu fiz.

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