O gosto de minha morte na boca deu-me perspectiva e coragem. O importante é a coragem de ser eu mesmo.
- Friedrich Nietzsche
Dentro de um cubículo apertado, Violet sentava-se em um pequeno e desconfortável banco de madeira. As finas paredes em um tom seco podiam ser derretidas por seu olhar. Ao seu lado esquerdo, uma grade frágil revelava a imagem do padre José, um homem mais velho e de baixa estatura, que admirava solenemente a Bíblia em suas mãos.
O calor era sufocante. Mesmo estando dentro da casa de Deus, a moça sentia que o inferno estava lhe abraçando. Isso lhe assustava, porque o abraço a confortava, a medida que um gelo em seu peito vinha a incomodando desde o ocorrido na casa de Graham. Os elementos mais secos de seu rosto são seus olhos, já cansados de tanto chover sobre a mesma superfície. Como se as últimas lágrimas houvessem evaporado com a temperatura ambiente, e o peso das nuvens a tivesse machucando.
Com uma baforada de ar exausta, os ombros de Violet caem de vez. Incontáveis demônios dançam em volta de sua aura, deleitando-se de sua agonia. Até seus lábios não se soltam facilmente, como se tentassem forçar seu silêncio. O padre sente a atmosfera carregada, e começa uma oração em silêncio, da sua maneira pra aliviar a tensão que o espírito dela sofria.
- Eu sei que somos a imagem e a semelhança de Deus... Mas, ele não é. Aqueles olhos não são...
O silêncio da igreja é sereno. Nem mais os murmúrios do padre são audíveis. Violet faz o sinal da cruz e fecha os olhos, já muito cansados. A espera do perdão de Deus, ou do sermão de José. Entregue àquela atmosfera nociva, a moça permanece pensativa sobre os horrores que vivenciou, sobre os horrores que ainda vivenciará. Do tom de voz irônico soberbo e frio de Graham, da agressividade da figura.
De repente, um bater na porta a faz abrir os olhos. Um movimento sutil, mas que pela finura do objeto, desloca a porta pra frente. A moça se inclina junto, um pouco assustada, e se apoia no banco, quando num alavanco, a porta voa pela igreja.
Seus olhos se arregalam, enquanto sua pele se arrepia. A figura com o pano vermelho na cabeça se apoia no confessionário, com o olhar fixo sobre a moça. O homem a puxa pelo braço, quase o arrancando de seu corpo, e a levanta no ar pelo pescoço. Sem saber para onde apontar seus olhos, Violet circula sua atenção por toda a igreja em questão de milésimos de segundo, notando o sangue sob os pés de seu inimigo.
- Considere essa como a nossa ligação!
Trilha Sonora:
O reflexo de um largo espelho mostra um homem desfrutando do silêncio e de seu cigarro. Sua aparência, mais pálida e seca, contrastava com a de tantos outros artistas que já estiveram neste camarim. As paredes, totalmente brancas e limpas, seguravam severos panfletos, autógrafos e fotos de inúmeros cantores, alguns pendurados pelo próprio fumante. Seu olhar era fixo na fumaça que saía de seu fumo, e a respiração pesada. Após mais um trago, a saliva desce ainda mais seca por sua garganta, aumentando a sensação de desconforto que o rapaz vivenciava.
A fumaça do último trago sobe, e dessa vez os olhos do cantor acompanham, deparando-se com uma foto pendurada na parede acima do espelho, que ainda não havia sido notada. Nela, um homem mais velho recebia um beijo forte na bochecha de uma fã mais jovem, enquanto a garota que tirava a foto estampava um sorriso largo no rosto.
- Eu sou Phillip Kartalian! Eu não sou seu filho! - Exclama o homem para a foto. - Eu não sou só seu filho!
A expressão de Phillip se fecha ao ponto em que ele joga o cigarro no chão e o amassa com o pé. Sua cabeça começa a tremer, seus olhos se fecham, e a nicotina que não chegou a entrar em seu pulmão começa a falar mais alto. Sem conseguir segurar seu impulso, Kartalian bota a mão no bolso de sua calça jeans preta e puxa o seu maço de cigarros, arrependido de ter desperdiçado o último. O cantor pega seu isqueiro verde sobre a mesa e o aproxima de seu cigarro, mas também não consegue acendê-lo. Frustrado, arremessa o objeto e seu maço na parede, levanta-se e dá um chute na cadeira.
- Eu não consigo mais dormir à noite... Nunca pensei que fosse ser assim. - Reclama Phillip olhando para a foto. - E a culpa é sua!
Phillip olha para o isqueiro, e volta o olhar para a foto. Sua expressão se alterna entre uma motivação súbita e a indecisão de tomar uma pequena atitude com um significado pesado por trás. Ele então sobe na mesa, com dificuldades, e encara a foto de seu pai com dúvida. Pega o isqueiro da mesa e acende, mas reluta ao aproximá-lo do papel.
Bam! O abrir repentino da porta assusta o cantor, que cai da mesa em um tombo feio. O isqueiro escapa de sua mão, mas não chega a quebrar. Um homem alto, trajado todo de preto, do blazer até os sapatos, adentra o camarim, e olha para Phillip com espanto. A figura tinha um ar cômico, seus cabelos lisos e compridos, sua barba por fazer e um sorriso besta. Ele estende a mão para o rapaz caído, que aceita.
- E você quem é? - Pergunta Phillip.
- Eu sou o que não caiu da mesa. - Responde Marcos Jeeves, levantando o cantor.
- Ok, gostei da piada. Agora, eu quero a resposta da minha pergunta. - Retruca Kartallian desgostoso com a brincadeira, enquanto desamarrotava sua roupa.
- Eu sou Marcos Jeeves, vim oferecer o meu trabalho. - Diz o homem, estendendo a mão em cumprimento agora.
- E você é o quê? Um segurança? - Questiona Phillip confuso.
- Não, eu sou um ator. Ouvi dizer que estão trabalhando num filme sobre a carreira do seu pai. Vim aqui pedir uma chance para poder interpretar você. - Afirma o homem com uma sinceridade infantil.
Phillip para por alguns segundos, tentando assimilar toda a loucura da ideia da figura. Depois, analisa-o dos pés a cabeça, e conclui que tal ideia não surgiu de uma suposta semelhança física inexistente. Ainda boquiaberto, o cantor cerra os olhos, e com o pouco que restou de seu cérebro funcional, tenta responder Jeeves.
- Olha só... - Enrola Kartallian, tentando encontrar palavras. - Por quê?! - Exalta sem conseguir algo mais elaborado.
- Com todo o respeito ao senhor, sei que já trabalhou em alguns papéis, tem uma carreira de ator, mas eu vejo que você é um papel um pouco mais sério. Precisa de alguém mais experiente para tal. - Explica Marcos.
- Você está me dizendo que eu não sou a pessoa certa pra me interpretar? - Questiona o rapaz.
- Quase isso. - Responde o ator, concordando com a cabeça.
Phillip para por uns segundos, quase catatônico com a situação.
- Obrigado pela sua oferta, vou pensar com carinho depois. - Afirma Kartalian.
- Sério mesmo?! - Pergunta Jeeves entusiasmado com a possibilidade.
- Sim. Você trouxe um ponto de vista muito válido. Eu, dono de todos os privilégios que possuo não posso descartar uma crítica, não sou imune a elas. Preciso aprender com elas. - Explica Phillip, com uma expressão muito séria. - Liga pra mim mais tarde, depois do show. A gente conversa direitinho.
Finalmente Kartalian aperta a mão de Jeeves, que não consegue esconder a sua felicidade com a possibilidade. Ele retribui o aperto de maneira forte, quase machucando o braço do cantor, antes de soltar.
- O senhor não vai se decepcionar! - Afirma Marcos, deixando a sala. - Muito obrigado, você não sabe o quanto estou feliz agora!
Kartalian não consegue reagir com o mesmo entusiasmo, mas esforça um sorriso e faz um sinal de joinha com a mão direita. Jeeves deixa a sala, e o cantor volta suas atenções para a foto de seu pai.
- Pai... - Solta Phillip junto com todo o fôlego de seu pulmão, sentando-se em sua cadeira novamente.
O cantor fecha seus olhos, e volta a se prender entre suas angústias e pensamentos, esperando a hora de seu show. Em meio aos flashes de fãs adolescentes que passam em sua mente, os gemidos de emoção se misturam com sons de pancadas, e gemidos de dor. Ele abre os olhos novamente e se depara com o maço de cigarro jogado na mesa.
- Não deixa de ser um privilégio ser seu filho...
Phillip pega o maço e o guarda no bolso de suas calças e se levanta dando leves batidas na cabeça, tentando bagunçar um pouco mais seus cabelos. Respira fundo, pega sua guitarra vermelha no fundo do camarim, e sai da sala.
Sua expressão muda instantaneamente ao se deparar com manchas de sangue no corredor. Assustado, tateia os rastros com os olhos, mas não consegue coragem o suficiente para segui-los. Ele puxa um telefone celular do outro bolso e começa a digitar trêmulo.
- Alô? É da polícia?
Violet abre os olhos e avista um teto sujo. Ela força as vistas, tentado se localizar o mais rápido possível, e tenta se levantar. A moça estava algemada a uma cama, dentro de um quarto estranho. As paredes, pintadas de azul, pareciam ser as únicas coisas do cômodo que ainda não haviam morrido. Ali também várias cômodas antigas, e um guarda-roupa de madeiras. Outra coisa que a intriga é a iluminação, bem presente através de uma janela, posicionada atrás da cama, que acolhia o brilho da tarde com carinho.
Já realizando o ocorrido, a moça faz silêncio para tentar ouvir alguma movimentação. O chão era de uma madeira já desgastada, e se a casa toda fosse assim, não seria difícil identificar passos. Por segundos ela fica ali, porém sem nenhum ruído como resposta, então, volta suas atenções para a algema que a prendia na cama. Ela estava presa no braço direito, complicando ainda mais a coordenação de uma pessoa destra como a repórter.
Dyxon respira fundo, impedindo que sua angústia alerte quem estiver por perto, e traça o próximo plano, voltando-se para a janela. A moça se senta na cama, e tenta se esticar para ver algo por ela, mas só consegue avistar o azul do céu de sua posição. Esforça-se, contorciona-se atrapalhada pelas algemas, mas não obtém um resultado mais positivo.
Frustada, Violet se joga contra a cama com força, como se estivesse a culpando por sua situação. Num frenesi de raiva, enche o colchão de socos. Depois de inúmeros golpes, seus ombros cansam, e com o esvaziar de seu ímpeto, seu corpo desaba. Bastante incomodada com as algemas, ela revira, força, tenta puxar seu braço, em vão. Ao passo em que suas ideias param de surgir, o ranger de uma porta lhe chama a atenção. Passos firmes seguem seu caminho, cada vez mais altos e próximos do quarto onde Dyxon estava. A moça respira fundo e a porta do cômodo se abre.
Parado na frente de um corredor escuro está a figura encapuzada, segurando uma bandeja com pão e uma pequena caixa de suco. Sem fazer cerimônia, o homem adentra o quarto e arremessa a bandeja na cama. Violet observa a cena com olhos arregalados, enquanto seu raptor não faz menção nenhuma de deixar o cômodo.
- Come.
Violet o encara com medo, e trêmula pega o pão da bandeja, mas não consegue o aproximar de sua boca. Seu olhar não consegue se desviar do enorme homem que permanecia imóvel a frente da porta. Não aparentava possuir nenhuma arma, tão pouco precisaria de uma arma para acabar com a vida da moça naquele momento. O que lhe restava era seguir viva, o que lhe restava era seguir viva.
Num movimento forçado e brusco, a repórter lança o pão em sua boca, e o mastiga com bastante desgosto. A farinha de trigo lhe parece terra, o sal lhe cai como sujeira. Com bastante esforço, o pedaço mordido passa por sua garganta. Toda a cena fora assistida pelo mascarado, que continuava estático, sem deixar alterar nem mesmo sua respiração.
Antes de morder o pão novamente, Violet puxa energia para falar:
- Por que eu estou aqui? Onde estamos?
- Com a quantidade de merda que fez, ainda me pergunta? - Responde o homem.
- Eu falei que não ia contar para ninguém! Eu não vou contar para ninguém!
- Seu silêncio é precioso, mas você acha que a gente deixou você sobreviver por isso?
- O quê? - Questiona Violet no ímpeto.
- Graham tá nesse momento preso. Em casa. Ele não estava fornecendo as informações necessárias... Você me entende.
- Vocês são podres! - Afirma Violet, arremessando o pão na figura.
O pão bate no peito do homem como um pedaço de papel, e cai no chão.
- Não me interrompa... - Reclama o homem, respirando fundo. - Fato é, com a polícia de olho nele, não tem como seguirmos nosso trabalho.
- Ainda bem... Fico um pouco mais tranquila com isso.
- E é por isso que você está aqui.
- Por quê? Você quer que eu faça o trabalho sujo dele? - Indaga Violet surpresa.
- Olha como a menina é esperta... Graham não mentiu sobre você.
Dyxon não consegue segurar uma risada nervosa.
- Você pode me matar! Pode me matar agora! Eu não vou sujar minhas mãos! - Exclama Violet com um tapa na bandeja, derrubando-a da cama.
- Eu sei, você é uma pessoa muito boa... - Alfineta o homem, aproximando-se da moça. - Você não sabe com quem está mexendo.
- Com quem eu estou mexendo? - Pergunta Dyxon, com muito mais medo do que petulância.
O homem tira uma chave do bolso de suas calças e entrega para Violet.
- Eu não vou matar só você. Eu vou matar você, seu amigo engomadinho, seu namorado mauricinho e quem mais aparecer no dossiê que o Graham montou sobre a sua vida.
Dyxon arregala os olhos.
- Essa é a chave das suas algemas, isso vale também caso você tente fugir daqui. - Afirma o homem se levantando, e indo em direção da porta do quarto. - Por sinal, esta é a minha casa.
A figura bate a porta, estremecendo a larga tábua de madeira, levemente moldada para ser o objeto. Violet permanece travada na cama, suas veias congeladas pelo medo da presença dessa ameaça, e pela incerteza que a situação escancara. Um olhar desconfiado para a chave, que não a libertaria de coisa alguma, e a moça destrava as algemas que a prendiam na cama.
Já podendo se movimentar pelo quarto, até seus passos se tornam robóticos, como se suas pernas não possuíssem a coragem de entrar em contato com o chão. Num ritmo lento, ela se aproxima da janela, e finalmente avista o que há além do quarto: uma rua deserta, ainda sem asfalto, com poucos sinais de vida nos arredores. A paisagem não era morta, era simplesmente vazia, composta pelos poucos seres que optam pelo silêncio do nada sobre o caótico barulho dos que optam por se juntar.
Seu pulmão que já havia se preparado para alguma tentativa desmedida de chamar atenção, desiste por ordens do cérebro. A moça se debruça na janela, enquanto sua cabeça cai. Os ruídos dos passos pela casa geravam um forte incômodo em seus ouvidos. Diante do chão que se via, Violet torcia para que em um piscar de olhos, este pesadelo acabasse. Para que em um piscar de olhos, a falta de vida de seu isolamento se tornasse seu apartamento. Seus olhos se abrem, e ela ainda está lá.
- Meu Deus... Eu não merecia isso...
- E quem merece?
Dyxon se vira no susto de volta ao quarto, e não avista ninguém. A voz doce que a surpreendeu ecoa em sua cabeça, confundindo-a, iludindo e guiando seu olhar para todos os lados. Ainda atordoada com a resposta de ninguém, dirige-se até a porta do quarto e a abre.
Os corredores eram surpreendentemente limpos. O chão rangia bastante, mas todos os outros elementos que compunham o local eram bem cuidados. As paredes, pintadas num tom azul mais claro não possuíam mancha alguma, e, após apertar o interruptor, Lindsay vê que a residência também era bem iluminada. Ainda assustada com a situação, Dyxon segue com passos temerários em direção das escadas.
Já no térreo, a moça se depara com o quão espaçoso era o lar de um homem tão cruel. Basicamente, se via todos os cômodos de qualquer ponto da casa. E o chão ainda rangia. Numa virada de rosto, avista o homem arremessando com pouco zelo um saco de compras dentro da geladeira, e retirar com a mesma intensidade uma garrafa de cerveja.
- Por que eu? - Pergunta Violet, desistindo de uma aproximação sorrateira, graças ao chão barulhento.
- Pergunta pro Graham. - Responde o homem virando suas costas para a moça.
Dyxon percebe o homem levantando a máscara para por a garrafa na boca, mas prefere não tentar ver o rosto do homem.
- Vocês querem que eu faça parte desse jogo diabólico... E mesmo assim, não saiba o monstro que está do meu lado?
- Para você ver o que está atrás desse pano, eu preciso de duas coisas. - Diz o homem, arrumando o pano e se virando para Violet. - Ou eu preciso confiar em você, ou eu preciso matar você.
A moça tenta encarar o assassino, mas não consegue e se retrai, tentando esconder as lágrimas que começavam a fugir de seus olhos. A figura percebe, mas ignora e se direciona para a sala, passando seco em frente a moça.
Não haviam muitos móveis na casa, além da cozinha sustentada unicamente pelo essencial, a sala era ocupada apenas por um largo sofá e uma grande TV. O homem pega um banco no caminho, e joga na frente do sofá, sentando com seus pés sobre ele. Angustiada, Violet se aproxima com os ombros trêmulos e os braços colados ao corpo.
- O que vocês querem de mim, caralho?! - Exclama a moça.
- Por enquanto, nada. - Diz o homem num tom calmo, enquanto cruzava os pés no banco. - Depois eu tenho um presentinho pra você. Vai ser excelente como treino.
- Treino?! - Grita Dyxon. - Você só pode estar de brincadeira!
- Você já matou alguém?
Violet hesita. Não pela dúvida, mas pelo choque da pergunta, pela força da pergunta. Como um pequeno soco, ela cambaleia para trás com o golpe, e demora poucos segundos para se recompor e responder.
- Claro que não. E eu adoraria continuar desse jeito.
- Que pena. Vai perder sua virgindade mais cedo do que imagina...
A figura ri, e Violet engole seco.
- Se eu fosse você, dormiria para descansar. Amanhã será um dia cheio... - Diz o homem enquanto zapeia os canais em sua TV. - E eu sei que você é muito inteligente, por isso não tentará nada de engraçado, certo... Amiga?
- Filho da puta! - Solta Violet.
O ar sai do pulmão da moça com raiva, agredindo-a por todo o caminho até a sua boca. Suas mãos se fecham com força, como se tentassem se destruir no movimento. Ideias como correr para a cozinha e se armar com uma faca passam em sua cabeça, mas são descartadas no passo de lembrar das ameaças do homem, que avista a reação com indiferença.
- Vá dormir caralho! - Exclama o assassino.
- Deixe eu pegar um copo d'água. - Pede a moça.
A noite cai. Ainda debruçada na janela, Violet olha para a Lua reflexiva. O reflexo da luz do Sol era o único resquício de vida que se avistava dali. Outro grande incômodo era a ausência de odor. Nem mesmo a mofo o ambiente fedia, como se aquele lugar não fizesse parte do mesmo mundo que ela conhece, não abrigasse uma pessoa tão podre como abriga.
Violet parte para um soco na madeira da janela, mas hesita e desiste. O silêncio era avassalador, e a sua existência poderia servir de bom proveito. Ela só precisaria de coragem. Ao se voltar para o quarto, a moça encara por segundos sua cama. Uma única certeza pairava sua cabeça, atordoava seus pensamentos. E era tão incerta... Independente do que acontecesse nesta noite, nesta casa, ela não seria mais a mesma. Uma profunda respiração dá mais firmeza para seus olhos, que continuam observando o colchão. Alguma coisa dentro de si iria morrer, sua pergunta era o quê.
Ela se dirige para a cama, e puxa uma faca de debaixo do colchão. De cabo preto, a lâmina era grande, mas já estava se tornando cega. Violet torcia para que estivesse afiada o suficiente. Na ponta dos pés, e com a faca na mão, a moça se dirige para a porta de seu quarto, tentando ao máximo fazer o mínimo de barulho possível, tarefa árdua graças ao piso velho. A mão desarmada pega na maçaneta e a abre.
Já de noite e com a maioria das luzes apagadas, os corredores transmitiam toda a sensação que Dyxon esperava por na tarde. Todas as paredes continuavam limpas, e não havia nenhum resquício de morte em seu caminho, mas o escuro era sufocante. Com muita dificuldade, conseguia-se enxergar o que estava a cinco palmos de distância. Seu pé já doía do esforço, e ameaçava hesitar num passo ou outro, com medo de que o homem estivesse a esperando, parado bem na sua frente.
Sua saliva congela, seus membros começam a agir como se fossem compostos por metais enferrujados. Com medo de ser desarmada facilmente, mas desesperada para aumentar seu campo de localização, a moça estica a mão que não segurava a faca, e rezava em voz baixa para que ela não encontrasse nada. Acender as luzes estava fora de cogitação, quanto mais furtiva, maior a chance remota de acontecer um milagre.
Violet nota uma porta melhor trabalhada, cheia de detalhes caprichosos do marceneiro, e força ainda mais sua mão contra o cabo da faca. Com mais medo de ser descoberta, do que de realmente confrontar o homem, acaba fechando a porta o mais rápido possível. Ao se virar para o cômodo, e tatear o breu com os olhos, seu coração acalma um pouco.
O pequeno quarto guardava apenas uma cama e uma pequena cômoda. Sobre o móvel, estava um pedaço de papel, que a moça nem ousa pegar para tentar ler. Com o cômodo servindo de pouca ajuda e uma sensação de que sua sorte estava esvaindo, Violet se volta para a porta. Ao tocar na maçaneta, o ranger do chão a paralisa. O barulho vem próximo, mas o desespero atordoa sua localização, e a única coisa que a moça consegue fazer é deixar suas lágrimas escorrerem.
O barulho cessa rapidamente, mas Dyxon não consegue soltar da maçaneta, com a certeza absoluta de que o assassino está do outro lado da porta, esperando pacientemente sua saída. Segundos se passam, minutos se passam. Até a sua respiração está mais lenta, numa tentativa de fingir inexistência. Sem receber qualquer resposta ou sinal da presença do homem, uma parte de Violet começa a pensar em se jogar na cama, esconder a faca e dormir ali mesmo. Postergar seu plano para um momento mais oportuno. A outra, já muito injuriada, pensa em atravessar a faca em seu próprio pescoço, escolhendo a saída mais rápida, fácil, egoísta para sua situação.
Sem dar atenção para nenhuma das duas, a moça puxa a maçaneta e abre a porta. Pressionando bem o cabo da faca com uma mão, estica a outra para tatear o que há na frente. Após garantir a ausência do homem, seus ombros se decaem um pouco, relaxando da tensão.
- Graças a Deus. - Violet sussurra.
Seus pés já gritavam de dor, e sua sorte era que o barulho era interno. Num ritmo lento, a moça continua vasculhando o primeiro andar da casa, a procura do quarto onde o homem dormia. Seus passos se tornavam cada vez mais demorados e difíceis de serem executados. Sua visão, ainda que totalmente adaptada ao ambiente escuro, ainda era humana. Pelos corredores estreitos, contrastantes ao térreo aberto, Violet avista várias portas, mas uma lhe chama mais atenção.
Esta ficava bem no fim do corredor, quase como se fosse totalmente oposta ao quarto onde Dyxon acordara. Seu queixo range e as lágrimas congelam sobre suas bochechas. Seus lábios cerram e a moça respira fundo. Mais uma vez, ela segura na maçaneta.
- Abra a porta. - Diz a voz do homem.
Violet se vira no susto, atacando com a faca num raio circular, tentando ampliar o alcance do golpe, mas nada atinge. Ainda tensa, tenta desferir diversos ataques, descoordenados, no puro desespero, mas também só encontra o vento. Sem entender nada, a porta às suas costas se abre, e o ranger do chão a notifica da posição do assassino.
Dyxon tenta virar novamente com um ataque, mas antes que pudesse pensar em atingir qualquer coisa, recebe um forte soco na parte direita do rosto. A moça cai quase desacordada, sem saber se era uma boa ideia resistir e permanecer acordada, ou não. Totalmente atordoada, não oferece luta enquanto o homem a pega e põe em seus gigantes ombros.
Durante o caminho, Violet não consegue entender uma palavra sequer que o homem profere, parte pelo forte golpe que recebera, parte pelo alto ranger do chão. Outra coisa que a moça não consegue distinguir é para onde o assassino a carrega. Quando se dá conta, ele a joga com força numa cadeira, e rapidamente injeta algo em seu pescoço.
Seu corpo fica mole rapidamente, e sem conseguir fazer algo sobre, a moça fecha os olhos e desmaia.
Violet abre os olhos e se encontra presa. Suas mãos seguravam um revólver, e não conseguiam se mover graças a um forte nó aplicado, a prendendo a um pesado armário. A moça olha para baixo e nota que seu pé direito também está preso, e começa a se situar no ambiente.
O lugar onde estava contrastava de tudo o que havia na casa. Este sim parecia o lar de um homem doente. As paredes manchadas de sangue, armas brancas de todos os tipos espalhadas como se fossem roupas. O odor de morte era insuportável, mas o oxigênio era importante demais para se recusar. A sua frente, mirado pela revólver, estava um homem preso a uma mesa, na vertical, com seus braços e pernas abertos.
- JEEVES! - Grita Violet.
Jeeves chorava, mas não conseguia se comunicar, amordaçado. Dyxon percebe que caso deixe seu dedo escorregar, pressionará o gatilho e a bala atravessará o crânio do rapaz. O desespero dos dois apenas crescia, mas os nós, as correntes, a mordaça, e a impotência lhes prendia ali.
- Eu vou dar um jeito... E a gente vai sair daqui. - Diz Violet num tom ofegante.
A fala pouco ajuda em acalmar o ator, que suava a níveis industriais. Ele balançava a cabeça incansávelmente, tentando de algum jeito se desprender, mas sem sucesso, até que a sala começa a esquentar.
Um barulho de metal se movendo pega os dois no susto. Detrás de Violet, aparece o assassino com uma serra em mãos. Ele ajusta seu pano sobre a cabeça, e se aproxima da moça, sendo vigiado com total atenção pelos olhos aflitos de Jeeves.
- Você me provou que está pronta para matar. Então, antecipei um pouco nosso treinamento.
- Eu não vou matar ele! - Retruca a mulher.
- Ah vai... De um jeito ou de outro, você vai matar ele. - Responde o assassino, carregando o revólver preso a mão de Violet, e o destravando.
O homem prende a serra num coldre improvisado, e se aproxima de Jeeves.
- Uma hora seu dedo irá fraquejar e apertar o gatilho. Nalon me ensinou este truque. - Diz o homem num tom perturbadoramente calmo. - Terminações nervosas, elas cansam. Mas, sua primeira morte não pode ser definida por cansaço, terminações nervosas. Ela tem que significar algo para você.
- VOCÊ É UM DOENTE DO CARALHO! - Exclama a moça.
O homem ri.
- Você não quer matar ele porque isso seria algo mau. Tirar a vida de alguém... Estou te dando o presente de você matar ele ser algo bom.
- Como, seu desgraçado?!!
- Encerrando o sofrimento dele. Por exemplo... - O assassino pega a serra. - A pessoa que tem um braço serrado, sofre. Não?
O homem começa a serrar o braço direito de Jeeves. Sangue começa a espirrar, a maioria se derramando sobre o pano em sua cabeça. O ator solta um grito horrendo, que fica preso em sua boca pela mordaça. Os olhos de Violet quase saltam da cabeça, até que a figura para.
- Já ouviu dizer que dedo duro é filha da puta pra caralho? - Indaga ironicamente o homem. - Esse aqui não vai apontar mais o dedo pra ninguém.
Jeeves era um homem alto, mas o assassino ainda sim lhe fazia parecer pequeno. Ele pega uma faca do chão, arranca o dedo indicador da mão esquerda do ator, e o arremessa na direção de Violet.
- PARA SEU DESGRAÇADO! - Grita Violet, fazendo seus pulmões tremerem.
- Mas, é justamente você que decide quando eu devo parar! É só arrumar os culhões que arranjou ontem a noite! Filha da puta! - Responde o assassino num tom mais nervoso.
As lágrimas começam a descer descontroladamente pelo rosto da mulher, que não conseguia suportar a feição de dor e desespero de Jeeves. Ela tenta fechar seus olhos, mas a imagem não sai de sua cabeça. O assassino então pega a faca que Violet usara, e aponta para o peito do ator.
- Um golpe aqui... Dói demais, mas ele morre logo depois. Onde eu devo cravar sua amiguinha aqui?
- Para! Por favor! Pelo amor de Deus! Para! - Suplica Dyxon.
- Bela escolha! Aqui...
O homem crava a faca na virilha de Jeeves.
- FILHA DA PUTA! - Grita Violet.
- Vamos! Mate-o! - Grita o assassino de volta.
Dyxon cruza olhares com Marcos. Todas as palavras que seus olhos tentavam dizer se resumiam em: "por favor". Então, a moça solta o dedo, e aperta o gatilho.
A bala cruza o ambiente e perfura a cabeça de Jeeves. Violet desaba, mas pelo nó em suas mãos, acaba ficando dependurada. O homem então se aproxima e a puxa pelos cabelos para encará-lo.
- Bem-vinda ao meu mundo! - Afirma o assassino, tirando o pano de seu rosto, revelando sua face.
Da porta dos fundos de uma casa noturna, Phillip sai cabisbaixo, com seu maço de cigarros e caminha até um canto mais isolado. Na rua, ele avista e estranha um carro estacionado, mas cansado demais para qualquer coisa, só puxa o isqueiro do bolso e acende um cigarro. De dentro do veículo sai um homem com a cabeça enfaixada na altura da testa.
Bem vestido, a figura se aproxima de Kartallian, que ignora a sua presença, até que ela oferece um aperto de mãos.
- Boa noite... Algum problema? - Pergunta Phillip, receoso quanto a bizarrice da figura.
- Desculpe-me. Não quero atrapalhar, incomodar ou assustar. - Diz a figura. - Mas, fiquei sabendo que você foi a última pessoa a ver Marcos Jeeves vivo.
- Ele morreu mesmo? Minha nossa que tristeza. - Responde o cantor, numa reação confusa. - Caralho... Ele era da sua família! Meus pêsames.
- Não, não era.
- Ah... Não? - Pergunta o rapaz, bastante perdido. - Era teu amigo?
- Também não.
- Tu era fã dele, então?
- Não, eu trabalhei com ele.
- Aaaaaaahh... - Exclama Phillip levando as mãos a cabeça.
- E foi por esse trabalho que ele morreu.
- Minha nossa cara, que pesado. - Responde Kartallian cerrando as sobrancelhas, como se estivesse inteirado no assunto.
- E eu vim pedir a sua ajuda, porque eu preciso terminar esse trabalho.
- Peraí cara... Tu acabou de dizer que o cara morreu por causa disso. Quer que eu morra também?
- Fique tranquilo, a parte de morrer fica comigo, eu já tenho experiência com isso...
-------------------------------------
Muito bem gente, tá aí. Demorou pra karalho, mas tá aí. Quando sai a segunda parte? Não sei, mas sai, porque eu ainda não morri.
O Jeeves sim.
Só queria dar um pequeno feedback aos personagens criados para essa parte da história:
Puta que pariu, 3 piadas é pra me foder.
Fora isso, todo mundo que apareceu em Eyes Behind the Camera, e tá vivo ainda, vai aparecer na parte 2 de Intention Behind the Eyes. Como vocês viram, Jeeves morreu. Então, não é garantia que nenhum malandro da primeira parte sobreviverá.
O resto todo mundo já sabe, se não souber pergunta. Aqui, no WhatsApp, na puta que te pariu, fazendo sinal de fumaça, o caralho a quatro.
Se alguém quiser dar feedback do que está achando da história, se está gostando, do que tá uma bosta, eu agradeceria. Se não quiser dar feedback também, caguei.
Os outros dois personagens criados aparecerão na segunda parte, relaxem a corneta.
É isso aí.
Foda-se

Excelente, Ari!
ResponderExcluir